O Brasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027. As oito cidades-sede foram escolhidas, os estádios confirmados, o Maracanã reservado para a final. O discurso oficial fala em legado, em fortalecimento das mulheres, em momento histórico para o futebol brasileiro.
Enquanto isso, metade das jogadoras que deveriam ser o símbolo desse legado não recebe salário para jogar.
Alguém poderia explicar essa lógica?
Por que ninguém conecta esses dois dados?
O governo federal e a CBF celebram a Copa de 2027 como conquista nacional. R$ 685 milhões serão investidos no futebol feminino entre 2024 e 2029. O Brasileirão Feminino de 2026 cresce para 18 clubes, aumenta o número de jogos em 84% e paga R$ 2 milhões ao campeão.
Ótimo. Mas o Ministério do Esporte divulgou um dado que ficou enterrado nas notas de rodapé desse mesmo anúncio: 47,9% das jogadoras adultas de futebol no Brasil não recebem salário nem ajuda de custo para jogar. Quase 70% fazem dupla jornada. Ou seja, trabalham em outro emprego para poder treinar.
A pergunta que ninguém faz nos coletivos de imprensa: como um país que não consegue pagar suas próprias jogadoras vai sediar o maior torneio de futebol feminino do planeta?
O investimento existe. O problema é para quem ele vai
Os R$ 685 milhões anunciados pela CBF são reais. O aumento de 26% no calendário é real. A cota de R$ 720 mil por clube na primeira fase do Brasileirão é real. Então por que metade das jogadoras ainda não tem contrato?
Porque o dinheiro sobe. Vai para federações, para dirigentes, para contratos de transmissão, para a estrutura administrativa que cresce junto com o futebol feminino. O que chega na ponta, na jogadora de 22 anos que acorda às 5h30 para treinar antes de trabalhar como caixa de supermercado, é uma fração.
A Série A1 terá 18 clubes em 2026. Dois deles, Fortaleza e Real Brasília, desistiram da vaga antes de começar. O motivo foi financeiro. Não conseguiram sustentar o custo de manter um elenco profissional feminino. Em seus lugares, entraram Vitória e Mixto. O dado passa despercebido, mas é um retrato exato do sistema: cresce o número de vagas, mas os clubes ainda não conseguem financiar o básico.
O assédio que o crescimento não resolve
Em 2023, atletas do Santos entregaram cartas acusando o técnico Kleiton Lima de assédio moral e sexual. O treinador deixou o cargo no mesmo dia. Mas o problema não saiu com ele.
Um levantamento do Observatório Racial do Futebol mostrou que 52% das jogadoras entrevistadas relataram ter sofrido algum tipo de assédio dentro do futebol. Quase 48% descrevem situações de assédio moral. E apenas 14,7% denunciaram. Dos 113 relatos registrados, só 17 agressores tiveram alguma consequência.
Isso é o que o futebol feminino brasileiro oferece à maioria das suas atletas: treino sem salário, jornada dupla e risco de assédio sem garantia de proteção.
A Copa de 2027 não vai mudar isso automaticamente. Uma competição de quatro semanas não transforma uma estrutura que levou décadas para se estabelecer dessa forma.
O que o futebol masculino nunca toleraria
Aqui está a comparação que precisamos fazer sem eufemismo: se 47,9% dos jogadores da Série A não recebessem salário, seria escândalo nacional. CPI no Congresso. Manifestação em frente à CBF. Cobertura de capa nos principais portais.
No futebol feminino, o dado vira nota de rodapé num comunicado de imprensa sobre crescimento e investimento.
Isso não é coincidência. É a mesma hierarquia de valor que fez o futebol feminino ser proibido por lei no Brasil por quase 40 anos, de 1941 a 1979. Mudamos a lei. Não mudamos o olhar.
A Seleção Feminina vai disputar amistosos contra Costa Rica, Venezuela e México em 2026, preparando o ciclo para 2027. As convocadas receberão seus salários, suas luvas, suas diárias. São as melhores do país, e merecem cada centavo.
Mas o futebol feminino não é só a Seleção. É a jogadora do Mixto que viajou 1.500 quilômetros para uma rodada do Brasileirão e voltou com um contrato de três meses e zero garantias. É a atleta de 19 anos na segunda divisão que treina num campo de terra porque o clube não tem estrutura para o elenco feminino. É a capitã de time que precisa ligar para a empresa em que trabalha pedindo folga no dia do jogo.
A Copa pode ser um legado real. Mas não se o Brasil fingir que já chegou lá
Sediar a Copa de 2027 é uma oportunidade genuína. Não para celebrar o que foi feito, mas para ser honesto sobre o que falta.
A CBF prometeu que a partir de 2027 todas as jogadoras inscritas no Brasileirão deverão ter contrato profissional. É um avanço. É também uma confissão de que, até hoje, isso não era obrigatório.
Um país que vai receber o mundo para celebrar o futebol feminino e ainda não garantiu contrato para todas as suas atletas profissionais não tem legado. Tem marketing.
Legado é o que fica depois que a FIFA vai embora. São as jogadoras que continuam treinando, recebendo salário, com proteção jurídica, plano de saúde e carreira estruturada.
Isso não se constrói com estádios. Se constrói pagando as jogadoras. Todas elas.
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